O encerrar de um ciclo

    Hoje é o dia em que me despeço oficialmente do curso de enfermagem através de uma cerimónia religiosa, a par da fundação e valores que dão origem à profissão e da instituição na qual me licenciei. Irei vestir a minha farda de estudante pela última vez e os meus sapatos azuis escuros de borracha irão percorrer as ruas de Lisboa até à Sé. Será incrivelmente estranho estar fardada em plena rua e rodeada de familiares (que nunca antes me viram assim vestida) sem me sentir, em parte, fora de mim. Menos eu até. Como se a Joana Enfermeira fosse uma identidade à parte da Joana filha, irmã, namorada, afilhada e por aí adiante, sendo que acabo também eu por a separar deste mundo blogosférico pela omissão de algumas etapas e testemunhos importantes que gostaria de ver eternizados com recurso à escrita. Pouco falei sobre este percurso durante o último ano de blogue e muito ponderei antes de o voltar a fazer nestas linhas. A conclusão a que chego é que talvez agora, após o concluir de um ciclo, me sinta confortável para expor a minha verdadeira perspectiva sobre o que é ser-se estudante de enfermagem. Quanto a ser-se Enfermeiro só mais tarde o poderei dizer.
   O propósito desta cerimónia é benzer as mãos - com as quais trabalhamos e tocamos as pessoas de quem cuidamos. É nada mais do que um gesto simbólico, ainda que para mim não tenha uma ligação para com a religião em si. Faço-o por respeito à tradiçao da instituição, dos professores e sobretudo pelos meus colegas. É a nossa despedida final! (...) Sei que não vou chorar nem me comover tanto como seria esperado porque, a ser sincera, a minha ânsia desde uma fase inicial do curso era terminar e seguir para o mundo do trabalho. Sempre foi o meu foco. Embrenhei-me em atividades que me permitiram enriquecer o meu currículo, mas confesso que não vivi com a mesma emoção o espírito académico. Afinal, acabo um curso com uma idade superior à da maioria e sempre senti que tinha mais a provar para dar a volta. Foi com muito esforço e dedicação que consegui superar as minhas metas, ter bolsas de mérito, estagiar em locais que me foram muito especiais e me sentir preparada para o que aí vem. A bagagem, essa eu tenho-a!. E, estou consciente da decisão que tomei - ao sair de um curso de Engenharia para ser Enfermeira. Não é às cegas que me lanço aos desafios da profissão. Como costumo dizer, sei ao que vou! O que mais me custou, ao longo destes quatro anos, foi ter que conter partes de mim em prol do que era protoculado como certo. Senti, por várias vezes, que tive que me adaptar a diferentes perfis de enfermeiros orientadores sem puder ser autenticamente eu, com pequenas excepções. Todos eles tiveram um grande impacto em mim e foram cruciais para que terminasse o curso com segurança. Tive sorte com todos eles, posso dizer! Contudo, quando já temos uma identidade bem definida aos 24 anos - idade com que comecei - torna-se mais difícil esta modelagem provisória que para muitos pode ser até confortável. Para mim não o foi. Tive que engolir alguns sapos e discursos pouco adequados. Foram vários os monólogos no meu carro no regresso a casa. "Um dia farei assim...", pensava eu. E jamais irei sucumbir à tendência praxista entre estudante e orientador. Portanto, caro leitor, meu futuro orientando, serei uma cool; Contudo, exigente tanto quanto fui comigo. Foi-me também difícil aceitar a desorganização a que uma maioria dos cursos de base em Enfermagem estão sujeitos - independentemente da Escola. Estava habituada a algo muito diferente.
 No entanto, levo no coração uma certeza: cada dor de cabeça e noite/manhã/tarde mal dormida valeu a pena (isto do mundo dos turnos muda tudo!). Esta fotografia retrata bem esse espírito de dever cumprido e de orgulho. Encontro-me cansada, de olheiras vincadas, mas feliz por perceber que dei o melhor de mim, fosse ou não este esforço devidamente reconhecido.
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Foto tirada no último dia na faculdade enquanto estudante e líder de organização de um evento.
  Eu sei que não vou parar por aqui, pois tenho mil e um planos para depois. Eis que quero aprofundar conhecimentos nas áreas com que mais me identifiquei, correr atrás de um sonho antigo (fingers crossed!!), terminar aquilo que comecei e, quem sabe um dia (!), construir algo de raiz à luz dos meus valores. Prentendo alcançar um patamar na vida em que se dê uma perfeita união entre as diferentes Joanas.
Aí sim, tudo fará sentido (até os tropeções!). Será um caminho de uma vida, que se fará passo a passo, ainda que eu queira tudo para o dia de ontem. Sempre gostei de fazer puzzles do dia para a noite, mas desta vez ainda não tenho as peças todas. (...) Paciência, diz o meu pai.
O tempo é o melhor professor, diz a vida. Não poderia concordar mais, mas aqui em modo de desabafo, custa tanto ter que esperar que a vida se resolva quando já nada depende de nós. Oh, se custa..! A espera parece infindável! Entretanto, vou ocupando a mente com novas publicações, pois não sei estar quieta. Ideias não faltam, mas gostaria de ouvir sugestões.

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