O meu último turno.

   Há uns bons meses atrás (em Setembro), estava eu a iniciar o estágio na unidade de cuidados intensivos quando escrevi esta publicação sobre o meu primeiro turno enquanto estudante de enfermagem. Retratei o que senti quando vesti a farda pela primeira vez com toda a sinceridade que me caracteriza. Posso agora revelar, em mero título de curiosidade, que o meu primeiro estágio decorreu na unidade de cuidados continuados e integrados da Raríssimas, e que adorei lá estar. Diverti-me muito e aprendi ainda mais. Desde então o percurso fez-se entre inúmeros contextos clínicos em diferentes pontos dispersos de Lisboa. Passei por uma enfermaria de Medicina em Loures, por Cirurgia no IPO, por Obstetrícia num hospital privado, Pediatria no Amadora-Sintra, por um lar mesmo debaixo do aqueduto das águas livres, por uma clínica psiquiátrica e ainda por um centro de saúde algures no Estoril. Foi um longo caminho, e que se finalizou numa unidade de cuidados intensivos no centro de Lisboa. Confesso que o peso de ser o último estágio em contexto clínico me deixou ansiosa, algo que aprendi a disfarçar com recurso ao estudo, o que compensou em termos de competências adquiridas e de crescimento pessoal. Na terça-feira passada vesti a mesmíssima farda branca pela última vez (....)! Ainda me falta um estágio que decorrerá em plena comunidade, isto é, entre bairros, visitas domiciliárias e escolas. Se vestir a farda será ocasionalmente e não será um turno oficial como os conhecidos horários de enfermeiros alternados entre manhãs, tardes e noites. Por isso, este último turno teve um outro sabor. Dei por mim a reflectir no tanto que mudei a nível de postura para com as pessoas que cuidava. Mais relaxada. Sem a preocupação se cada palavra que dizia era bem vista pelo orientador. Infelizmente, o estudante tem que se moldar à personalidade do mesmo e nem sempre estes têm o bom senso de compreender que o aluno não é uma sombra e sim um indivíduo com personalidade própria, e por isso eu fui adoptando a estratégia de moldar a minha pessoa à personalidade do orientador com o intuito óbvio de o conquistar (há quem valorize alunos que debitam matéria, outros que querem que o aluno faça tudo quanto pode por eles, outros que quanto menos fizeres melhor, outros que não gostam que lhes faças perguntas...) e ter assim uma colaboração tranquila. Afinal, é passageiro e a mim interessa-me que o resultado, nomeadamente a nota, seja o melhor possível. Eu terei tempo para mais tarde prestar cuidados diferenciados consoante os meus valores. Acho sensato pensar assim. 
Neste último estágio confesso que senti o impacto do rigor de uma unidade de cuidados intensivos. Fui confrontada com a ausência de conhecimento em diversas temáticas. Logo eu que sou, por vezes, rotulada de sabichona. Abalou um pouco o meu chão e a insegurança esteve presente. Culpei-me por não saber certas coisas que julguei serei básicas. Fui, mais uma vez, excessivamente exigente comigo, até que percebi que era uma questão de tempo até me adaptar. A minha orientadora deu-me liberdade para aprender, colocando questões e exigindo que prestasse cuidados autonomamente, sem estar com holofotes apontados a cada passo meu. (...) Confiou em mim e isso fez toda a diferença. Cinco meses depois senti que conseguia ser responsável pelas pessoas que cuidava, sem ter aquela segurança que um orientador também nos dá perante a dúvida, pois ele valida. Senti que me reconheciam o saber e neste último turno fiquei orgulhosa da evolução, da destreza nas mãos, no à vontade com que me deixo transparecer, e simplesmente porque fiz parte de uma equipa. Senti que poderia ser efectivamente eu e que primar por pequenos detalhes, chamados de "delicadezas", é importante, sim!
Foi, por isso, um estágio deveras importante e que, embora tenha começado insegura, me deu certezas. Muito ainda tenho que estudar e investir, pois sei agora, melhor que nunca, quais as áreas que se enquadram com a minha preferência e forma de exercer. É visivelmente diferente exercer enfermagem numa unidade de cuidados intensivos do que num bloco operatório ou em emergências (onde também tive a sorte de realizar alguns turnos). Já consigo, depois deste estágio, apontar quais as áreas de enfermagem que me fascinam com uma convicção coerente com a experiência. Afinal, quem diria que iria gostar tanto de dar consultas de saúde infantil com bebés a gatinhar na minha secretária? Estive três anos a dizer que queria seguir a área de paliativos!
As certezas de antes viram-se do avesso e estenderam-se a outras dimensões, nomeadamente ao percurso de vida que pretendo seguir.
Questionei-me muito durante estes últimos meses e perguntei-me várias vezes se me contentaria somente com Enfermagem, mas sem nunca a querer reduzir! Estou, assim, no processo de tomar uma grande decisão, num impasse entre duas opções, entre ir ou ficar, entre arriscar ou jogar pelo seguro. Confesso que deixei de ter medo de recomeçar de novo e sei que eventualmente o meu instinto me puxa para o lado do risco. Aprendem-se grandes lições com as decisões que nos obrigam a mudar e a sair da nossa zona de conforto. Também sei que não me contento com os padrões que nos incutem e que a vida é um contínuo na direcção de algo melhor.
Aprendi que Enfermagem é uma vocação, mas que tal não poderá ser exclusivo, pois quero prosseguir por outros caminhos e quem sabe não se encontrem?! Afinal, acredito que podemos dedicar-nos a diferentes talentos e interesses na nossa vida. Porquê escolher só um e jogar ao tudo ou nada? Porque não atirar setas em diferentes direcções? Os enfermeiros, no final de contas, são multitasking, para além de serem muito mais do que enfermeiros.
Por isso, finalizo esta etapa com uma certeza: de que quero investir em diferentes paixões para me sentir completa. Termino também com a certeza de que não sei estar quieta e de que escolho os caminhos mais difíceis, pois sou do tipo de pessoas que quando estabelece uma meta, vai lá e insiste até resultar. Persistente, diria. Ambiciosa, também. E casmurra, será? Muito!

2 comentários:

  1. Ainda bem que tu e a tua orientadora encontraram um equilíbrio entre as duas e conseguiram conciliar o trabalho com as vossas personalidades, tornando o ambiente mais harmonioso. Fico genuinamente feliz que tenhas vestido a bata branca no último dia de estágio com orgulho e certeza de que a vida é muito incerta e cheia de surpresas e caminhos que surgem do nada.
    Acho perfeitamente normal que ambiciones mais e que vejas outras oportunidades a cruzar o teu destino. O ser humano não foi feito para estar parado e tenho a sensação de que vais ser incrivelmente bem sucedida no que quer que tenciones fazer, seja optar pela via mais segura durante algum tempo, ou arriscar já tudo.
    Sê muito feliz e sê muito tu, o resto é a vida!
    Um beijo enorme e PARABÉNS ☄💛

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    1. Foi a última vez que vesti a farda (*)

      E mais uma vez que palavras maravilhosas!

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