Mau-feitio.

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Não existe uma forma simpática de o dizer nem eu sou pessoa dotada de eufemismos: eu tenho mau feitio. Muito mau feitio. Bem, é um mau feitio mascarado por um coração mole, de manteiga, como em modo corriqueiro se diz por aí. A idade e a sabedoria que os finais dos vinte me vão trazendo permitiram-me ter uma maior consciência das arestas que preciso de limar e das situações em que este meu tempero vem ao de cima...! Acredito que esteja cada vez mais paciente e tolerante para com os outros, pois era, por vezes, incrivelmente exigente. Hoje em dia, só os que bem me conhecem, no seio do lar, presenciam o meu mau-feitio no seu expoente máximo. Fora disso, sou apenas a Joana com convicções fortes que diz o que pensa, quando assim tem que ser. Confesso que tem o seu quê de engraçado. Não sou de bater o pé, nem de grandes discussões ou devaneios. Sou a chata que gosta de falar. De argumentar. De ir ao fundo da questão. De dissecar os problemas até não haver mais réstia de dúvida. Se é um defeito meu? Talvez, quando isto passa a incomodar os outros.
No entanto, tenho vindo a aperceber-me que o meu mau-feitio deriva de uma preocupação para com os que me rodeiam e amo. Por isso, se me vires com cara fechada e de mau-feitio é porque me preocupo. Porque vale a pena. Caso contrário, é deitar para trás das costas que a vida faz-se para a frente, sem rugas desnecessárias, se possível. Por contraste, gostaria que este meu feitio de mão firme, "de gancho" como diz o meu pai, me permitisse ter uma memória mais selectiva. Analiso tudo (...)! O lado positivo é não guardar rancores. Resolvo no momento e depois resolvido está. Não sou de remoer o que já não tem solução ou que solucionado está. E no fim de contas, este meu mau-feitio vai sendo balançado com outras características que o tornam especial e que fazem de mim quem eu sou. E por isso, há que aceitar os nossos defeitos e virtudes, sem nunca desistir de nos superarmos ou, pelo oposto, sem nos desleixarmos neste percurso que é a vida, repleta de auto-descobertas. Portanto, espero que esta breve reflexão te tenha deixado a pensar. Será que também eu tenho mau feitio? Será que posso mudar? E em que medidas o devo fazer? Que dose devo aceitar como parte característica da minha personalidade?
Fica a questão (não fosse eu a psicóloga de serviço, sempre a devolver perguntas). É bom dedicar tempo para nos conhecermos.

3 comentários:

  1. Não sei se o encararia como mau-feitio, ou então sou só eu a fugir ao termo certo a esta atitude, mas, revejo-me muito nestas palavras.
    Quantas e quantas vezes fico carrancuda por não ter conseguido ajudar a pessoa ou não ter percebido o que realmente a incomodava ou não ser capaz de dizer o que devia ouvir.
    Também sinto que a minha mãe e a minha irmã aguentam muito mais da Joana intransigente e dura de roer do que mereciam ou deviam. Mas, acho que é um reflexo e uma auto-protecção muito comum, deixarmos que os nossos elos mais fortes levem com tudo, para conseguirmos dar muito de nós aos de fora. Nem sempre é mau, porque, também há muita energia positiva, aliás super positiva, que só chega ao seio mais chegado.
    Contudo, também é um detalhe que quero muito corrigir. Preciso disso até por mim. E espero que desse lado a luta também seja feita de forma cívica e persistente. Beijinhos 💛

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    1. Sim, talvez seja intransigência para comigo. Sabes aquela procura pela perfeição? A sensação de constante insatisfação por não termos os nossos propósitos sempre alcançados? Se estamos constantemente a definir novos, como poderia ser?

      Mas no fundo, acho bom sermos exigentes!

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    2. Compreendo melhor do que imaginas e, apesar de me magoar, por vezes, sei que também é uma luta diária.

      Sim, exigência pode trazer-nos benefícios em muitas áreas da nossa vida.

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