Pela Livraria Ler Devagar com Pietro Proserpio.

Escrevo estas linhas em casa, de robe, com o aquecedor ligado e com um pacote de lenços ao meu lado. Com alguns grau de temperatura acima da minha média e com uma fadiga extrema que me pesa no corpo!. Dormi até tarde e com o tempo cinzento lá fora não há nada melhor do que uma boa leitura. Apetece-me deixar os livros clínicos de lado. Por uma vez só... Ando atulhada em horas de estágio, em trabalhos para entregar e aulas. E claro, com alguns extras - alguns dos quais surgiram vindos do nada, ou sem nada eu esperar (?). Quem diria que a forma como perspectivamos o futuro pudesse mudar tanto e tão depressa? Reflexões retrospectivas de parte, dei por mim com saudades dos tempos em que o meu segundo habitat eram as diversas bibliotecas de Lisboa. Há cerca de um mês, quando o Verão Outonal andava por aí, fui ao Lx Factory e decidi-me a entrar na biblioteca Ler Devagar. Já por lá tinha passado à porta. Desta vez entrei com as expectativas elevadas, a ver pelas várias fotografias no Instagram (diz que é um local trendy), no qual mantenho um álbum com destinos que pretendo visitar. A lista já vai extensa, o que muito tenho a dever a alguns de vocês que por aqui me lêem, e este é um dos locais que já posso finalmente riscar. Contudo, confesso que a primeira impressão não foi a mais satisfatória. De biblioteca este espaço tem pouco. É sim um conceito diferente. Uma livraria com um toque retro, com um espaço para se beber um café e se ir ficando, com um cantinho para gira-discos e exposições.
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     💬O meu primeiro pensamento foi algo como "Não estou em Portugal!", o que começa a ser recorrente em Lisboa e não somente no centro da cidade em si. Não ouvi uma única palavra enunciada na nossa língua, o que terá certamente o seu lado positivo como outro negativo. Afinal, estaremos nós a saber vender a nossa cultura e tradição ao mundo ou a modificá-la enquanto produto? Fica a questão..! Nem eu mesma tenho uma opinião ainda formada sobre o assunto.
    Retornando à temática, este é sim um espaço para quem se quer perder à procura de nada em concreto. Apenas vasculhar. Não vão lá apenas para tirarem a fotografia de praxe na escadaria com as personagens em cartão circulantes. Não! Deixem-se ficar. Conversem e perguntem. Foi assim que conheci o senhor Pietro Proserpio, que me brincou com um "Hello, do you want a private guide session to my little exposition?" com um sotaque amoroso em italiano. Ele mesmo se apresenta como sendo o Gepeto com a ajuda da mecânica e das suas traquitanas. Ele rapidamente diz que não se tratam somente de engenhocas e sim de objetos cinematográficos (?). Eu não percebi a associação, mas o encanto e a meninice com que contou a história de cada um dos objetos que criou é o suficiente para que valha a pena.
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Pietro Proserpio tem 77 anos e vive em Portugal desde míudo, constituiu família por cá, casado com uma portuguesa, e diz que foi com os netos que construiu vários "Pinóquios". Oooh! Agora reformado é uma presença assídua na Livraria. Faz parte da sua rotina e ajuda-o a passar o tempo na sua velhice. Diz ele que nós somos escravos do tempo, sempre a correr em função do mesmo, e que ainda assim em Portugal corremos para chegarmos atrasados. Brincadeiras à parte, estarão cerca de quarenta e tal minutos a perguntar-vos o porquê de estarem ali, de boneco em boneco, a ouvi-lo. A questão é essa. Não é pela peça, pela formiga que dança Michael Jackson, ou pelo homem de cartão sentado num uniciclo, em movimento em direcção a uma lua em quarto crescente. Nem mesmo pela peça gigante à entrada com uma bicicleta, também de sua autoria. É sim por comentários de Pietro, tais como: “Este é o sonhador, porque sonha chegar à Lua com o seu chapéu-de-chuva. Se chegasse à Lua já não era um sonhador, era um americano”.
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  Por isso, se tiverem tempo, disponibilidade de ouvir e vontade para dois dedos de conversa não se esqueçam de entrar na livraria para além da foto de praxe. É que o autor de tais recortes de cartão pendurados no tecto têm o seu autor lá dentro à vossa espera. Irão rir-se muito com ele! Garanto-vos! É também uma grande lição para quem como ele tem o seu hobby ali de lado, sem lhe dar o devido mérito.

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