Enfermagem não faz de mim uma pessoa melhor.

   Há dias dei por mim sentada no meu quarto durante uns bons minutos, meio perdida. Tinha acabado de acordar, sem saber que horas seriam, ao ponto de nem me conseguir orientar no tempo. Seria de manhã? De tarde? Já tinha vindo do turno? Ou ainda não...? Seria já o dia seguinte? Certamente que em algum momento de cansaço extremo já experimentaram esta sensação (?), quanto muito em estado de ressaca. Acontece que tem sido algo recorrente por aqui devido aos turnos que tenho feito. Sempre afirmei que gosto desta rotina de turnos. Qualquer hora é rentável. O mundo da Enfermagem permite-nos rentabilizar o tempo em qualquer momento. Não é somente um trabalho que terá que esperar pelas 9 horas do dia seguinte. Não! É por isso que cada vez mais gosto de vestir a farda a qualquer hora do dia. No entanto, tudo tem o seu mas. E aqui vos trago o meu desabafo.

O curso de Enfermagem tem sido para mim um mundo de redescoberta e auto-conhecimento pessoal. Abriu-me portas para um futuro que eu nunca idealizei nos mais infindáveis planos de adolescente (...) - aquela miúda que se dedicava aos estudos e ambicionava grandes metas. Significa isto que foi a Enfermagem que me fez mudar as directrizes. Quero agora coisas diferentes. Encontrei a minha vocação, o que aliado à minha personalidade persistente acredito que vá ser sinal de grandes voos, efectivamente, senão literalmente. Contudo, há algo que eu não posso dizer, e que por norma choca um pouco as pessoas em meu redor. Não alinho em falácias e no que é poético de se ouvir só porque sim. Considero, por isso, que...

Enfermagem não me tornou numa pessoa melhor. Mais atenta ao outro.



  Quando o digo sinto que há todo um espanto. Enfermagem tem certamente os seus problemas e lutas próprias, e está também rodeada de inúmeros floreados. (...) Ser-se enfermeiro é socialmente visto como ser-se boa pessoa, bom samaritano, é ser-se prestável e não dizer não. É recorrente perdir-se ajuda ao vizinho enfermeiro para dar aquela injecção. Afinal, não lhe custa nada. Ou um conselho sobre o aleitamento do mais novo. Senti isto pela primeira vez quando ao por conversa com um idoso na rua, este me disse: "Aaah, vê-se mesmo que vai ser Enfermeira! É tão simpática! As pessoas, hoje em dia... nem reparam.". E eu perguntei-me porquê? Sempre fui assim. Sempre existiu em mim esta componente da comunicação e de observar o outro. É algo meu. Não o aprendi num único livro. E acreditem que li muito sobre a visão holística da pessoa segundo cada uma das teóricas de enfermagem. É das primeiras coisas que se ouve na escola. 
Terá sido isso que me moldou a esta minha forma de estar? Eu respondo-vos que não. Enfermagem até certo ponto abre-nos os olhos ao lado mais humano da pessoa, por a encontrarmos em momentos da sua vida de maior fragilidade: a doença, a morte, o parto... 
Dá-nos sim experiência de contacto com realidades diferentes e que de outra forma nos levariam mais tempo a coleccionar enquanto aprendizagem no nosso pequeno percurso de vida. Mas Enfermagem também nos formata. Ao longo do curso aprendemos técnicas, teorias, lemos artigos, fundamentamos, reflectimos e (...) depois na prática cada um executa de forma distinta (o que não significa que esteja errado). Em cada estágio alguém nos incute essa forma de estar (a sua) como a certa. Sente-se de perto uma hierarquia presente de estudante, que deverá ser passivo, a orientador que nos diz o que fazer. Tenho encontrado algumas excepções no caminho. Ainda assim, a formatação existe. Aquele método mecanizado do fazer-fazer-fazer. E isto é algo que me dizem em jeito de sabedoria de quem se acha muito mais experiente nestas andanças da vida (e às vezes são até mais novos do que eu - embora a idade não seja indicativo): "Fazes isso assim porque ainda és novata! Faz isto primeiro e depois aquilo. Não podes estar 20 minutos a falar com o cliente (...)". E eu penso cá para com os meus botões que o melhor é não questionar muito e entrar no comboio. Absorver o que há para aprender (e a nossa escola é das melhores do mundo), filtrar os bons exemplos, e seguir caminho, perspectivando a autonomia que terei para gerir os meus cuidados enquanto futura Enfermeira. Há-de chegar o dia em que poderei realmente ser a Ju Enfermeira. A Ju que não se contem... Nem por ter uma farda vestida. Que é autêntica.
E por isso repito: Enfermagem não me tornou uma pessoa melhor. Por vezes omito grande parte de mim, por estar sujeita à apreciação de outro alguém, fechado sobre si. Acredito que um dia isso vá mudar e que jamais irei cair em semelhante erro (?). E como eu anseio por esse momento. Creio que, aí sim, serei melhor Enfermeira do que alguma vez o consegui ser enquanto estudante.
Quanto a ser boa pessoa, isso tem dias. Todos nós o podemos ser, praticando a boa fé e cuidando dos nossos. 
Não é o Enfermeiro privilegiado nessa matéria, somente por ser enfermeiro. Há que ser muito mais. Assim eu penso.
É desta que me chumbam. 😅
Brincadeiras à parte, quero muito partilhar com vocês mais pedaços do meu dia e enfermagem é a peça chave.

2 comentários:

  1. Falaste de Enfermagem e eu aplicava a tua reflexão à minha área também, a psicologia. Existe tanto essa coisa do se tem profissão x então é assim ou assado. Não é de todo verdade mas em algumas situações não me importava nada que fosse.

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  2. Obrigado, minha querida!

    Concordo plenamente com o que disseste e sobrescrevo, de igual forma, o comentário da Ana Rita. Acho que nenhum profissão precisa de um rótulo comportamental ou coisa que o defina melhor do que aquilo que, efetivamente, faz!

    NEW REVIEW POST | OMG!!! Unforgettable INEXPENSIVE CLEANING BRUSH :o
    InstagramFacebook Official PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D


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