O meu primeiro turno.

 Recordo-me muito bem do dia em que vesti pela primeira vez a farda branca em contexto de estágio, numa casa de banho minúscula da unidade, há dois anos atrás. Estranhei-me ao me ver ao espelho. Nunca pensei que o meu caminho passasse por Enfermagem, confesso. Na altura hesitei. Pensei que talvez não fosse bem este o caminho ideal, e nunca porque duvidasse da vocação em si. Essa eu sentia-a há muito tempo, desde cedo, e omitia-a em prol dos diversos estereótipos que as vozes externas fazem ressoar. A profissão socialmente é ainda muito desvalorizada, a começar pelas médias de entrada. Acabei por não ir para Enfermagem com 18 anos exactamente por isso... Convenci-me, ou deixei convencer-me, de que era um desperdício para uma média de dezoito valores, e lá me meti numa engenharia só por mera vaidade intelectual. Na altura a que tinha a média mais alta no instituto superior técnico e isso enchia-me o ego, mas não os olhos de motivação. Até que me decidi a mudar tudo do avesso e guiar-me pelo que o meu coração ditava. Imaginem portanto o quanto que entrar numa unidade fardada pela primeira vez me induziu. Mal dormi na noite anterior por recear não gostar de me encontrar neste papel, e seguiu-se todo um confronto com a realidade de estar a começar do zero. A minha enfermeira orientadora era mais nova do que eu, e em parte também menos madura. Foi impecável para comigo, mas senti, como veio a repetir-se em estágios seguintes, que tinha que me conter para não expressar a minha sensibilidade na relação humana para além do expectável num estudante/estagiário, de modo a não entrar em confronto com as convenções de ninguém. Por vezes, o fazer ou ser-se de certa forma provoca no outro uma reflexão tal que caso não seja bem aceite o afasta no sentido da crítica e quando se tem um orientador que te dita a nota é melhor ser um pouco mais inteligente e deixar o meu jeito para depois. Senti-me, por isso, numa concha, padronizada como que em série. E logo eu que idealizava algo diferente e mágico. Idealístico.  
Imaginem, portanto, o vazio de me sentar numa secretária neste primeiro turno e a sensação de inutilidade e frustração, por pouco me ser ainda permitido fazer senão "coisas" e observar os enfermeiros a fazerem tarefas. Nesse exacto momento tirei esta fotografia com o meu fiel caderno de anotações sobre como se fazerem outras tantas coisas. Estava eu entristecida porque me parecia limitador.

  O que eu não sabia era que acabaria por fazer essas tantas "coisas" cantando Rui Veloso a alto e bom som. Poucos são os que me ouviram cantar, à excepção dele - o meu primeiro utente, que era uma criança de cinco anos, preso num corpo de 52 anos com distrofia muscular e paralisia cerebral. Cantar durante o banho ajudava-o a relaxar e aliviar as dores. Aquele momento do dia, incluído numa rotina de dia após dia, destinada a uma tarefa x, e intervalada com a ronda dos banhos, a da medicação, a dos pensos, a das refeições, passou a ser um momento de magia, em que nenhum problema meu importava mais. Eu estava ali. Deixava de ser em parte a Ju cá de fora e passava a ser a Ju enfermeira. Foi aí que percebi após o primeiro impacto e desilusão. Há "coisas e coisas", e formas de o fazer com o coração nas mãos, mas com muita sapiência nas intervenções. Ainda que me tenha que submeter a rondas em que se percorre uma unidade de uma ponta à outra, tal como a fábrica em série para se cumprir horário, é possível de não perder a essência que nos distingue dos demais. A minha parte de uma observação e sensibilidade para o sofrimento, vindo de quem o sentiu de perto. Aprendi a justificar este meu jeito de estar, descontraído, com diagnósticos de enfermagem. Há que saber justificar e argumentar, afinal o Humor a que tanto recorro está descrito na literatura, bem como um calor humano de um abraço, de uma lágrima partilhada com o outro, e não a distância incutida... Hoje em dia continuo a desiludir-me com alguns modelos de enfermagem seguidos. Agarro-me agora ao que me motiva a ser melhor, e filtro o que quero captar. E ainda há muito por onde me agarrar, felizmente! 
Deixo-vos com esta música, o hino da instituição que me acolheu no início desta jornada que agora está prestes a terminar. Ainda hoje vesti a farda no meu último primeiro dia de estágio e, por dentro, entoava "há gente rara, que és tu, e sou eu...".

6 comentários:

  1. Cada vez mais tenho a certeza que fazer o que deves fazer pela forma carinhosa como o descreves. Certamente és mais feliz como Enfermeira do que alguma vez serias como Engenheira. Ainda há muita coisa a melhorar no Sistema de Saúde e na Ordem dos Enfermeiros, porém, é com pessoas como tu no trabalho que isto pode dar pequenos passos na direcção certa! <3

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  2. Querida Ju, fico tão feliz a ler este texto, que nem imaginas. Acompanhei-te nessas alturas da entrada em Engenharia, das tentativas de Medicina... Já com palavras e fotografias muito bonitas na altura.
    Eu sou o contrário de ti. Fugi da Medicina, da saúde directa com o paciente, para a Engenharia Biomédica :P Mas desde cedo que se notava este teu querer no lado com o paciente e a tua "tristeza" em Engenharia. Estás no caminho certo, nunca duvides :)
    Essa pressão social vai sempre existir... Tal como existiu comigo quando eu disse que queria ser psicóloga. "Vais desperdiçar essa média em Psicologia para ires para o desemprego??". Não optei por esse caminho por decisão minha (não me imaginava sem Físicas e Matemáticas), não pelo que a sociedade me impôs. Mas nem sempre é fácil... Tenho uma colega de Engenharia Biomédica que não foi para Enfermagem porque a família a fez acreditar que seria uma vergonha. Se calhar hoje seria muito mais feliz do que aquilo que é... A tua vocação é o mais importante e tenho a certeza de que se um dia se der o caso de ser atendida por ti, vou ter muita sorte na profissional que me calhou.

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    1. Encheste-me os olhos de lágrimas agora...

      Nem sei ao certo como te agradecer. Sinto que sabes tanto de mim! E no fundo a vida ensina-nos a fazer melhores escolhas!


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  3. Que lindo <3
    E parabéns pela coragem!

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  4. Querida Ju, sabes que já te acompanho há uns anos, e estou consciente de todo o processo por que passaste até cá chegar. E sinto que chegaste ao sítio certo! Vais ser uma grande enfermeira, e isso já se nota pela tua capacidade de avaliação dos modelos que se apresentam a ti. Segue os bons, aprende aquilo que não queres ser com os maus e dá sempre o melhor de ti, tal como fizeste logo no primeiro estágio! :)
    Beijinho*
    http://nouw.com/juu

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  5. Foi maravilhoso ler este teu testemunho, completamente altruísta dos teus primeiros desafios. A forma como o escreves é a prova de que, muito provavelmente, estás no sitio certo e são precisas tantas pessoas como tu... Beijinhos :)

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