Music vibes #3

  Esta é uma das músicas mais recentes da minha lista de "put on replay", resultante de horas a conduzir devido aos turnos seguidos que tenho estado a fazer, motivo este da minha ausência. As rádios portuguesas têm aptidão para repetir músicas com alguma insistência. Vai daí, decorei já cada verso. A letra condiz com o meu estado de espírito actual, pois foi ao ouvi-la que me apercebi do tanto que a vida nos molda. As voltas a que a minha me obrigou deram-me a força necessária para saber partir. Ainda assim, o mais difícil é perceber que me tornei demasiado boa a dizer adeus. Sem olhar para trás (...) Canto-a, por isso, com um sentimento de tristeza, pois se outrora me era difícil desprender do que amo (e sempre amarei, pois uma vez amor sempre o será quando puro o foi), agora tornou-se inevitável. E por cada desgosto, cada desilusão e cada dor sentida, tornou-se mais fácil manter a minha base... A minha estrutura. Não abala tanto.
Não porque o sentimento ou a situação não seja tão intensa como à primeira. Simplesmente os meus alicerces são outros. Com o foco mais centrado em mim. Será isso frieza? Ou um novo mecanismo de coping que prima pela valorização pessoal? 



E estarei prestes a dizer mais uma vez adeus. A maior despedida da minha vida.
Se isso me assusta? Não. Assusta-me o facto de não me assustar. Percebem? Se me perguntarem o que mudou, eu julgo que saiba responder. Agora sei que dizer adeus não é sinónimo de me sentir só. Pode ser um Olá a outros mundos. 😏
Quanto ao blogue, não tenciono dizer adeus. Poderá a frequência de publicações diminuir por falta de tempo. Não é mesmo por má gestão. Já perdi mais uns quilinhos à conta do ritmo alucinante a que ando. Estagiar, trabalhar e estudar não é fácil. E isto por aqui é meramente um escape a tudo isso. Agradeço-vos por estarem por aí e me enviarem comentários e email's tão motivadores!

Yellow Bus.

📌 Localização: Jardim Engenheiro Luís da Fonseca, Setúbal.
  Estão recordados desta rubrica que inaugurei há cerca de duas semanas atrás?! Tenciono dar-lhe mais uso daqui em adiante. Afinal, as calorias que gasto no ginásio ou estágio têm que ser recompensadas com prazeres de gula, não vá eu desaparecer nas minhas calças! Não me recordo de estar tão magra, o que nem sempre é equivalente a ser-se mais saudável ou feliz... Neste caso (o meu), acredito que tudo esteja em harmonia!... Continuo a gostar de comer, apesar de ser mais selectiva e racional na hora de escolher o que irá ser fundamental para o meu corpo e estilo de vida. Valorizo cada vez mais as aventuras gastronómicas fora de casa, porque constituem inspirações para novas receitas, as quais também desejo partilhar com vocês.
No entanto, hoje fico-me pela descoberta de um cantinho de lazer por Setúbal: o Bar Yellow Bus. Ideal para terminar o dia com amigos!

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Pelo centro de Setúbal.

Moro permanentemente no distrito de Setúbal há cerca de três anos, mas sempre considerei esta a minha casa. Se me perguntarem de onde sou, respondo sem pensar: "Sou de Setúbal!". Cresci aqui. Foram as ruas por onde corro agora que aprendi a andar de bicicleta, que me perdi com o meu pai nas caminhadas pela serra, que me esfolei nas brincadeiras com os meus primos. Era a minha casa dos fins-de-semana, por onde passeava em família. Foi nesta casa, que os meus pais construíram de raiz, que me tornei mulher e comemorei cada aniversário. Foi também na Serra da Arrábida que fiz as maiores promessas e tomei grandes decisões. No fundo, apesar de ser lisboeta, conheço melhor Setúbal do que muitos dos seus residentes, e agradeço aos meus pais pela oportunidade de crescer num cantinho que me oferece de tudo. O melhor da cidade e do campo. Um equilíbrio perfeito, ao qual chamo de lar. Eles poderiam ter escolhido qualquer outro local, afinal nada nos agarrava aqui. Simplesmente se apaixonaram por Setúbal, pela Serra e por Azeitão. E eu confesso-vos que percebo o porquê. Sempre quis mudar-me para cá. Bati o pé com 15 anos. Queria fazer o liceu por aqui... Com muita pena minha, tal não aconteceu. Passei a frequentar o café da zona - o spot do meu verão de que vos falei, e invejo a comunidade de jovens que se encontram e se conhecem desde sempre. Na cidade onde cresci não existia essa proximidade, em que todos se encontram no sítio de sempre, com as mesmas caras conhecidas. E depois há um acréscimo: os setubalenses são, maioritariamente, despachados e muito simpáticos. Existem sim traços característicos, como o hábito de se falar com estranhos nas ruas, e eu gosto disso. De faladeira tenho muito. E se forem tão atentos quanto eu, apercebem-se por entre gente simples de alguns trejeitos: o carregar dos erres. Para isso terão que ir bem ao centro da cidade, como eu habitualmente faço. Desta vez, trouxe-vos comigo!

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O meu primeiro turno.

 Recordo-me muito bem do dia em que vesti pela primeira vez a farda branca em contexto de estágio, numa casa de banho minúscula da unidade, há dois anos atrás. Estranhei-me ao me ver ao espelho. Nunca pensei que o meu caminho passasse por Enfermagem, confesso. Na altura hesitei. Pensei que talvez não fosse bem este o caminho ideal, e nunca porque duvidasse da vocação em si. Essa eu sentia-a há muito tempo, desde cedo, e omitia-a em prol dos diversos estereótipos que as vozes externas fazem ressoar. A profissão socialmente é ainda muito desvalorizada, a começar pelas médias de entrada. Acabei por não ir para Enfermagem com 18 anos exactamente por isso... Convenci-me, ou deixei convencer-me, de que era um desperdício para uma média de dezoito valores, e lá me meti numa engenharia só por mera vaidade intelectual. Na altura a que tinha a média mais alta no instituto superior técnico e isso enchia-me o ego, mas não os olhos de motivação. Até que me decidi a mudar tudo do avesso e guiar-me pelo que o meu coração ditava. Imaginem portanto o quanto que entrar numa unidade fardada pela primeira vez me induziu. Mal dormi na noite anterior por recear não gostar de me encontrar neste papel, e seguiu-se todo um confronto com a realidade de estar a começar do zero. A minha enfermeira orientadora era mais nova do que eu, e em parte também menos madura. Foi impecável para comigo, mas senti, como veio a repetir-se em estágios seguintes, que tinha que me conter para não expressar a minha sensibilidade na relação humana para além do expectável num estudante/estagiário, de modo a não entrar em confronto com as convenções de ninguém. Por vezes, o fazer ou ser-se de certa forma provoca no outro uma reflexão tal que caso não seja bem aceite o afasta no sentido da crítica e quando se tem um orientador que te dita a nota é melhor ser um pouco mais inteligente e deixar o meu jeito para depois. Senti-me, por isso, numa concha, padronizada como que em série. E logo eu que idealizava algo diferente e mágico. Idealístico.  
Imaginem, portanto, o vazio de me sentar numa secretária neste primeiro turno e a sensação de inutilidade e frustração, por pouco me ser ainda permitido fazer senão "coisas" e observar os enfermeiros a fazerem tarefas. Nesse exacto momento tirei esta fotografia com o meu fiel caderno de anotações sobre como se fazerem outras tantas coisas. Estava eu entristecida porque me parecia limitador.

  O que eu não sabia era que acabaria por fazer essas tantas "coisas" cantando Rui Veloso a alto e bom som. Poucos são os que me ouviram cantar, à excepção dele - o meu primeiro utente, que era uma criança de cinco anos, preso num corpo de 52 anos com distrofia muscular e paralisia cerebral. Cantar durante o banho ajudava-o a relaxar e aliviar as dores. Aquele momento do dia, incluído numa rotina de dia após dia, destinada a uma tarefa x, e intervalada com a ronda dos banhos, a da medicação, a dos pensos, a das refeições, passou a ser um momento de magia, em que nenhum problema meu importava mais. Eu estava ali. Deixava de ser em parte a Ju cá de fora e passava a ser a Ju enfermeira. Foi aí que percebi após o primeiro impacto e desilusão. Há "coisas e coisas", e formas de o fazer com o coração nas mãos, mas com muita sapiência nas intervenções. Ainda que me tenha que submeter a rondas em que se percorre uma unidade de uma ponta à outra, tal como a fábrica em série para se cumprir horário, é possível de não perder a essência que nos distingue dos demais. A minha parte de uma observação e sensibilidade para o sofrimento, vindo de quem o sentiu de perto. Aprendi a justificar este meu jeito de estar, descontraído, com diagnósticos de enfermagem. Há que saber justificar e argumentar, afinal o Humor a que tanto recorro está descrito na literatura, bem como um calor humano de um abraço, de uma lágrima partilhada com o outro, e não a distância incutida... Hoje em dia continuo a desiludir-me com alguns modelos de enfermagem seguidos. Agarro-me agora ao que me motiva a ser melhor, e filtro o que quero captar. E ainda há muito por onde me agarrar, felizmente! 
Deixo-vos com esta música, o hino da instituição que me acolheu no início desta jornada que agora está prestes a terminar. Ainda hoje vesti a farda no meu último primeiro dia de estágio e, por dentro, entoava "há gente rara, que és tu, e sou eu...".

Do meu amor por fachadas.

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Dos mil e um sonhos que tenho, um deles é o de viver numa casa com uma fachada tradicional. Colorida e com um varandim.